sábado, 3 de outubro de 2015

Conheço três tipos de pessoas...


As que se medem contra quem acham que deviam ser.
As que se medem contra quem acham que querem ser.
E as que... não se medem contra nada.

No primeiro grupo encontro vulgarmente pessoas fortemente condicionadas por padrões sociais. Sabem quem acham que deviam ser. Podem ou não saber quem querem ser. Mas medem-se e medem-se sobretudo pelo gap entre ser e dever ser. Tipicamente deficitário. Vivem prisioneiras de um dever ser edificado a partir de fora, embora muitas acreditem que faz parte do seu próprio eu.

No segundo grupo encontro pessoas que sabem quem querem ser. Podem ou não ter um referencial do que deveriam ser. São mais livres quando não o têm. São menos quando o têm. E quando o têm pode até coincidir o querer ser e o dever ser. Aí são fortes. Quando não coincidem, vivem num purgatório entre um dever ser e um querer ser muito distantes.

Cada uma destas combinações caracteriza-se por diferentes graus de consciência, da transparência com que nos olhamos, da intensidade com que nos pensamos, da interpretação da nossa própria liberdade. 
A que nos deram e a que nós nos demos.
É a interpretação desta liberdade que marca a diferença. De acharmos que podemos querer ser independentemente do dever ser. 
De assumirmos as rédeas do nosso próprio destino, individual e colectivo.
Como assumir?
Aceitando, em primeiro lugar, o absurdo da nossa existência. A improbabilidade que lhe está associada. O vazio do infinito. A escala não humana do espaco-tempo. Acreditando que a definição de humanidade está em cada um de nós e que são os nossos actos e nada mais que a definem. 
Criando um propósito e um sentido para a vida. E medindo-nos contra ele.


domingo, 9 de agosto de 2015


Imerso no silêncio dos céus, sinto a felicidade de ter os meus dois irmãos. Nasci no meio deles. Cresci entre eles. Sou um deles.

O que sinto por eles é muito diferente do que um filho sente por um pai ou que um pai sente por um filho. Não há uma dívida como para com os pais. Não há um dever como para com os filhos. Há, antes, uma cumplicidade que é difícil de descrever.

Por vezes penso em como seria muito improvável ser amigo deles, se não fosse irmão. Sou muito selecto com amigos. Mas eles são os meus melhores. Porque são os meus irmãos. Não precisamos gostar das mesmas coisas nem ter concepções de vida semelhantes. Mas são os meus cúmplices.

Ninguém, absolutamente ninguém, me acompanhou nesta viagem de 39 anos como eles acompanharam. A Inês já só me conheceu aos 16 e as meninas depois dos 26. Pais e avós viram-me nascer, mas a partir do altar da experiência das suas vidas. Os meus irmãos não, esses acompanharam-me desde o início partilhando desde o primeiro dia esse trajecto.

Começámos por partilhar muitas coisas de que nem sequer tenho consciência. Partilhámos a pureza da infância, as brincadeiras, a bola, a areia e a terra, os arranhões, a praia e os escaldões, a casa dos avós e as viagens enormes nos carros dos pais. Partilhámos a nossa mãe de trinta e poucos anos e o nosso pai quarentão. Nunca fomos três. Fomos sempre os três. Partilhámos o desafio da adolescência, os amigos, as raparigas, as notas e os professores, as bicicletas e os arrepios às ordens dos pais. Partilhámos as frustrações, as inseguranças e os medos. Partilhámos o labor dos nossos pais. Partilhámos o Amor dos nossos pais. Partilhámos a constituição das nossas famílias, os nossos casamentos e o nascimento dos nossos filhos. Alargámo-nos. Vimos os nossos pais envelhecerem e vimo-nos, juntos, a ocupar o lugar que antes era deles. Deixámos de ser miúdos ao mesmo tempo.

Passámos 38 anos imensamente perto. Lado a lado. Ou no meio, no meu caso. Nasci no meio. Sempre fui o do meio. No quarto do meio. No lugar do meio no banco de trás do carro. No lugar do meio à mesa de refeição. Menos um ano que o mais velho. Mais um ano que o mais novo.

Não consigo descrever o quanto me inspira o meu irmão Ricardo. É o meu irmão mais velho. Tranquiliza-me, pacifica-me. A cada dia que passa sinto-me mais perto dele. Fala pouco sobre sentimentos, sempre falou. Não foi uma criança muito fácil, nem muito segura do seu destino. Tinha medos apesar de ser corajoso. Foi o primeiro, para todos os efeitos. Mais protegido. Soube crescer. Foi o que esteve sempre mais perto dos pais. E soube aprender com eles. Recolher os seus valores. Ganhou uma paz interior que nunca acreditei ser possível. É um guerreiro e um sonhador. Defende agora os seus próprios valores. Está em harmonia com a vida. Retira dela o que tem de melhor. E contagia-me.

O João é o meu irmão mais pequeno. É o Pini. Ou Shumba. Ou Shimba. Ou Shumagala. Ou Johnny. Ou simplesmente Bro. Este é mais complicado, terceiro filho. Teve de lutar para ganhar o seu espaço. E ganhou. A prova disso é que se perguntarem a terceiros quem é o filho preferido dos pais, é melhor apostarem tripla. Sempre foi pequenino, o mais pequeno. É o melhor irmão de todos os três (envergonho-me de ser o pior, mas tenho melhorado, acho). Realiza-se a ajudar. É cheio de vida e juventude. Dizem que faz 38 anos este ano mas acho que nos devemos ter esquecido de festejar alguns dos aniversários tal é a sua capacidade de brincar, rir e fazer rir. É impetuoso e valente. Se um dia me perdesse dentro de uma caverna haveria uma primeira pessoa a encontrar-me. Seria ele.

Conheço muitos irmãos. Não conheço dois que sejam como vocês. Não conheço três que sejam como nós.

(Mãe, Pai, como conseguiram?)

domingo, 8 de março de 2015

Inerte, inconsciente, ausente. Morto. Perante a morte, celebro a consciência.
A capacidade de nos apercebermos de nós próprios, de olharmos em volta e de questionarmos. Atributo exclusivo dos seres inteligentes. Recente.

Tento imaginar uma existência inconsciente, que apenas existe. Sem se questionar. A existência amoral de mares e terra. A rotação mágica da Terra. Sem que pedras se toquem, nuvens se cansem ou marés se acalmem. Tempos atrás de tempos num ritmo vertiginosamente lento.
Que significado tem a morte neste mundo?

Aparece a Vida. No mar ou em terra, seres vivos inconscientes sucedem-se interminavelmente nascendo e perecendo indefinidamente. Insectos, répteis ou mamíferos cessam a sua existência em momentos desprovidos de qualquer emoção ou sem que lhes seja atribuído qualquer significado.
Que significado tem a morte neste mundo?

A complexidade aumenta, no entanto. As emoções são adicionadas à equação e sente-se a morte. Ainda que mantendo-se desprovida de qualquer significado. Seres vivos celebram o nascimento e a morte. Um qualquer primata sente a tristeza da partida de um dos seus sem que lhe seja dada a faculdade de questionar aquele momento. Apenas sente.
Que significado tem a morte neste mundo?

Mas algures na seta do tempo, apercebemo-nos de nos próprios. E questionamos. Individualizamos. Criamos o Eu. Celebramos o seu nascimento. E questionamos a morte. Procuramos um significado que nunca até então foi procurado. Procuramos uma razão que até então não existia. Procuramos. Providos de uma consciência durante muito tempo inexistente. Conscientes da vida. Conscientes da morte.

Deitado sobre a terra, encostado a uma árvore, sinto a minha existência. O sol resplandece no meu corpo, sinto o peso da gravidade. As raízes de uma árvore abraçam-me como uma mãe abraça um filho. Sinto o regresso à origem. O fim. Sem respostas. Em paz. Conscientemente inconsciente.
Porque precisaria a morte de ter um significado neste mundo?

Na Vida, o que é verdadeiramente extraordinário, não é a morte. É a consciência.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O meu jardim



A Joana é o meu maior desafio. Vive num estado de atenção permanente. Controladora como o pai, nada lhe escapa. Sofre por antecipação, exige respostas para tudo. Efervescente, ainda não olha para dentro. Evita, tem medo. Estar na sua cabeça é como estar sentado ao volante de um carro citadino com um motor de F1. Tem dias em que consegue dosear o acelerador, não sai de pista e chega em primeiro. Tem outros, em que ainda não fechou a porta do carro e já está a acelerar a fundo. Passa do 8 ao 80 num segundo, temperamental. Ri, chora e grita com uma facilidade inacreditável, muitas vezes tudo ao mesmo tempo. É uma criança imensamente sensível (com a irmã tem momentos…). É uma filha maravilhosa com uma noção de família ímpar. É inteligente e esperta (e sabe-o) e move-se por objectivos. Gosta de se sentir crescida e abordar os adultos. É exigente consigo e principalmente com os outros. O mundo para ela ainda não tem limites (embora lhe custe a dormir fora de casa). É valente…durante o dia. A noite traz-lhe as inseguranças e os medos. “A partir das oito horas…”, como ela diz. Vai ser grande na vida. Pessoas como ela movem mundos. Diz que quer ser jornalista. A mim parece-me mais virada para os números ou mesmo…política. Educar a Joana deixa-me…realizado. Nada na minha vida se compara ao desafio de a educar. Obrigado por existires, Joaninha. Foi contigo que criei o meu jardim.

A Ritinha é o meu doce, o meu moranguinho com chantilly. Passa a vida a rir, contamina-nos com boa disposição. Adora bebés. O seu sonho era ser bebé, e julgo que ainda tem o cheirinho deles. Deve dormir com mais de vinte bonecos na sua cama. O seu mundo é a sua casa e os seus brinquedos. Tudo o resto é acessório. Estar na sua cabeça é como estar num mundo onde tudo é perfeito e…cor-de-rosa. Um mundo de príncipes e princesas, fadas e magia. Inabalável e independente do mundo real. Mas tem outro. Tem a música e a dança no corpo (ao contrário dos pais). Quando crescer arrebatará corações. Balanceará entre a timidez e as paixões. Não gosta de lutas, mas aprendeu a lutar, a ganhar o seu espaço. A Joana que o diga. É inteligente e humana. Viverá sempre a sua própria vida, independente e feliz. Pessoas como ela dão sentido aos mundos. Ainda não sabe o que quer ser. Ciências, digo eu. Educar a Ritinha…é das tarefas mais fáceis do mundo. É uma flor que precisa apenas de um pouco de água todos os dias. Obrigado por dares cor ao meu jardim, minha Ritinha.

domingo, 12 de janeiro de 2014


Existo, logo penso.

Adaptámo-nos. Evoluímos. A partir de formas de vida elementares tornámo-nos seres vivos evoluídos, inteligentes, conscientes. Notável. Seria uma questão de tempo? Os milhares de milhões de anos em que assentou esta evolução explicam tudo? Seria uma inevitabilidade? Creio que sim. Que a inteligência surgiria sempre como resultado da nossa interacção com o mundo que nos rodeia e que a consciência surgiria sempre como resultado da evolução da nossa inteligência.

Há, no entanto, uma condição necessária: a Vida. E o período durante o qual o nosso universo existiu sem Vida, é muito superior àquele em que existiu. Em rigor, no calendário cósmico, a Vida apareceu no início de Outubro. E teria que haver necessariamente Vida? É difícil pensar que não, embora a biologia nos sugira que apenas extraordinárias coincidências ao longo do tempo a tornaram possível. Mas num calendário cósmico em que o Homem existe apenas no último dia do ano do calendário é impossível não pensar que o tempo, tanto tempo, permita o seu aparecimento. Teremos sempre companhia. É uma questão de tempo.

Mas imaginemos que a Vida não tinha aparecido ou até que não tínhamos evoluído para qualquer forma de vida inteligente. O nosso planeta já esteve nesse estádio de evolução. Sem inteligência, inconsciente. E de que serve um mundo inconsciente? Qual o seu sentido e propósito? Terá que ter um propósito? Creio que não. É um mundo focado apenas na sua existência, na sua matéria. Inerte. Sem interpretações alheias. Livre. Mas sem propósito. Sem rumo, sem objectivos. Num estado bruto. Belo. Mas sem consciência dessa beleza.

Mas surgiu a Vida. E com esta, a inteligência e a consciência. Do Homem e do Universo. Heródoto, historiador grego, escreveu há quase 2.500 anos que "De todos os infortúnios que afligem a humanidade, o mais amargo é que temos de ter consciência de muito e controle de nada."
Ainda assim, seria preferível não ter consciência? Claro que não. Acredito que a consciência é o verdadeiro motor da nossa civilização. Omnipresente. Que nos permite valorizar a Vida e orientar a nossa inteligência. E que ao mesmo tempo, põe a nu todas as nossas limitações.

Não nos resta alternativa a tomarmos consciência das nossas acções, de nós mesmos e do mundo que nos rodeia. Até porque não é uma opção. Descartes disse que “Penso, logo existo” quando teve a certeza da sua existência porque pensou, porque duvidou de todo o seu conhecimento. Pois eu tenho a certeza que existo, logo penso. E escrevo. 

sábado, 16 de março de 2013

Penso todos os dias na morte


E pergunto-me se será assim com toda a gente.  Não há dia em que conduza que não pense num acidente fatal. Ou em que corra na rua e que não pense num atropelamento. Ou na morte de um familiar. Ou num ataque cardíaco ou doença fatal. 

Tenho uma relação simultaneamente próxima e distante da morte. Por um lado, penso constantemente nela. Por outro, nunca a vivi de muito perto. Nem com amigos próximos, nem familiares próximos. O mais perto que convivi com ela, por incrível que pareça, foi na morte, há alguns anos, da minha avó paterna que vivia...na Austrália.

E tenho algo parecido com uma hierarquia de pensamento. Em primeiro lugar, a constância do meu pensamento é comigo mesmo. Depois, avós, pai, filhas, mulher, irmãos, aqueles que mais amo. Mas há alguém no meio destes pensamentos que nunca aparece: a Mãe. Qual a razão? Não descortino razão nenhuma que não seja a ideia de infalibilidade da nossa Mãe. Aquela que estará sempre lá, sempre que precisarmos. É um sentimento provavelmente simétrico ao que sinto enquanto Pai. Porque nunca fui muito de pensar na morte… antes de ser Pai.

Não meço a tragédia da morte por aquilo que deixaria de fazer, mas pelo sofrimento que causaria a outros. Não acredito e nunca acreditei em nada para além da morte. Tenho uma visão infinitamente finita da Vida. Terei medo da morte? Porque penso tanto nela? 

Em boa verdade, vivo com normalidade pensando diariamente na morte. Não me apavora, não me incomoda, não me assusta. É apenas um aviso constante, permanente, uma consciência da vida que me alerta para o perigo que me rodeia. Ou talvez uma obsessão de tudo tentar controlar e antever. 

Penso muito nos últimos momentos de vida. Que pensamentos me ocorrerão nesse momento? Quais as perguntas que farei? Procuro as perguntas certas e tento criar as respostas todos os dias da minha vida. Que pai fui? Que marido? Filho? Neto? Cidadão? Ser humano? Que valor acrescentei? Qual o meu contributo para a civilização? Serão estas as perguntas certas? Pela ordem certa? Serão muito diferentes das vossas?

Não tenho medo da morte. Mas tenho um medo terrível do balanço que fizer nos últimos instantes de vida. Do balanço que eu fizer de mim mesmo. Não tenho medo da morte. Mas tenho muito medo de não viver a Vida.

"Death Is Very Likely The Best Single Invention Of Life. It Is Life’s Change Agent.”, Steve Jobs


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Visitei os Masai...


...numa das suas aldeias minúsculas perdidas na planície do Serengeti. O dia estava quente e um forte vento levantava uma nuvem enorme de poeira fina que se alojava nos nossos corpos. Fui recebido por um rapaz de vinte e três anos. Tinha os dentes amarelos, sujos e podres. Emanava um cheiro inesquecível. Sobre a sua pele negra tinha apenas um manto vermelho característico dos Masai.

Mostrou-me as suas casas. O espaço dará para cerca de três pessoas deitadas. A altura não é superior a um metro e meio. Assim que entro deparo-me com uma fogueira (!), a cozinha diz-me ele. Numa das paredes, um buraco por onde entra luz, muito pouca luz. Cinco minutos de conversa e diz-nos que num dos cantos está uma Masai a dormir. Penso como foi possível não termos dado conta.

Comem apenas carne, leite e sangue das duas vacas. Saem das suas aldeias para pastar o gado, para trocar alguns bens e para lutar. Chegam a andar setenta kilómetros sem beber nem comer para trocar uma vaca que adoeceu. Andam descalços ou em chinelos improvisados a partir de restos de pneus. Nas suas aldeias ficam também apenas o tempo possível até que uma qualquer doença os ataque e obrigue a procurar outro refúgio. Nestas andanças, encontram outras tribos com quem se degladiam até à morte. Dos grandes animais que os rodeiam não têm medo; "eles é que têm medo de nós!"

Vejo muitas mulheres. Também homens e crianças, mas em menor número. No entanto, quase não vejo idosos. Perguntei onde estavam, quase adivinhando uma resposta que me levasse a confirmar uma esperança média de vida muito curta. Disse-me que andam por aí. O seu pai tem noventa e oito anos e anda a pastar gado. Não sabe onde está. Já não o vê há alguns dias…

Impressionam neste contacto as condições de vida deste povo que não se aproximam sequer daquilo que consideramos serem limites mínimos. Não vale sequer a pena comparar os seus níveis de educação com os nossos. A diferença de conhecimentos sobre o mundo que nos rodeia e sobre a evolução da nossa própria espécie é enorme traduzindo-se, a meu ver, em diferentes níveis de consciência civilizacional.

Nada disto tem que ver, no entanto, com a felicidade. Esta é o resultado das nossas conquistas e frustrações e independente do nosso estádio de desenvolvimento.

Dizer que estas pessoas são menos felizes que outras quaisquer num mundo desenvolvido seria tão idiota quanto aceitar que uma civilização mais avançada do que a nossa fizesse o mesmo julgamento em relação a nós.

Se é que ainda não o fez…

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Donde vimos e para onde vamos


Debato-me com a questão "donde vimos e para onde vamos".
Ou melhor, com as questões "donde vimos" e "para onde vamos".

Julgo que a dificuldade de obter uma resposta a estas questões está intimamente ligada ao facto de a natureza humana ser um acaso do universo e que esta condicionante é limitativa da sua compreensão.
Ainda assim, pergunto-me qual das respostas teria, para mim, maior importância. De um lado, saber o que existia antes de tudo existir. Do outro, saber o que existirá depois de tudo existir.

Pessoalmente, preferia saber a resposta à primeira. Porquê? Porque mesmo acreditando que nunca conheceremos a resposta a estas perguntas, podemos mesmo assim aventurar-nos a conjecturar sobre o nosso passado e futuro. E enquanto que consigo conjecturar sobre o nosso futuro, sinto-me completamente impotente ao fazê-lo sobre o passado.

O facto de existirmos, deve-se, em meu entender, à crescente complexidade do universo. E nós somos a forma de complexidade mais avançada que existe. No nosso caso, demorou cerca de 15 mil milhões de anos a concretizar-se, mas seria sempre uma questão de tempo até tal acontecer. Também é claro para mim que o futuro será sempre o resultado de mais e mais complexidade, mais e mais entropia. Consigo imaginar um universo (multiverso?) cheio de homens-robôs, viagens intergalácticas, colonizações de planetas e outras coisas. Em que é que esta tendência culminará é, no entanto, difícil de prever.

Já quando tento olhar para as nossas origens esbarro-me sempre com o mesmo problema:   Quando olho para trás consigo imaginar a criação dos planetas, galáxias e até um big bang. Consigo até conceber um universo com sucessões de big bangs e big crunchs... Mas nalgum dia tudo teve de ter um começo e é aqui que eu perco a capacidade de conjecturar. O que existia antes de o tempo existir? O que existia antes de o universo existir? Há quem defenda que a pergunta não faz sentido porque simplesmente não existia tempo antes do tempo existir. E há quem fique satisfeito com este argumento. E há quem não fique. E eu não fico. E por isso me inquieto. E por isso escrevo.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Cada macaco no seu galho





Questiono-me frequentemente sobre o que difere na educação que é dada às crianças nos dias de hoje daquela que era a educação dada pelos meus pais há 30 anos. Se há algo que me impressiona é a inversão do centro gravitacional da família. Não raro, vemos famílias em que as crianças assumem um protagonismo tal, que parece que tudo gira à volta delas. São elas que definem o tema da conversa, que impõem os programas de passeio, que escolhem o canal de TV, que escolhem o lugar à mesa, etc. E neste particular, acho que é esta a principal diferença face à educação que nos foi dada.

Uma criança é e será sempre uma criança. Caminhamos num sentido em que as crianças são as maiores vítimas das ansiedades e inseguranças dos adultos. São um alvo inusitado de uma busca pela perfeição, em que cada criança é comparada incessantemente com a criança perfeita. Toda a informação que nos rodeia permite-nos criar referências absolutistas sobre características das crianças: a beleza, a forma como interagem com outras crianças, com adultos, o que já devem saber falar, brincar, fazer, etc. E a falta de discernimento de muitos pais leva-os a transferir grande parte dos seus desejos e frustrações para essas crianças.

Para mim, a educação consiste na sua esmagadora maioria em amor e ordem. O amor liberta. A ordem impõe limites. E a melhor forma de amar uma criança não é seguramente dando-lhe um papel central no seio da família. Esse papel é destinado aos pais. É a eles que cabe a condução da vida familiar e não a uma criança. Se para os pais já é uma tarefa difícil, como será para uma criança? A criança precisa de espaço, muito espaço, não precisa de um poleiro. Mas também precisa de cercas, de limites. Claros. É isso que lhe cria ordem numa personalidade em formação.

Uma criança tem de se saber colocar num segundo plano, da mesma forma que os pais têm de se saber colocar no primeiro plano. Inverter estes planos é demitirmo-nos (nós adultos) das nossas obrigações, é atribuir um protagonismo e responsabilidade a uma criança que não precisa e seguramente nāo está preparada para tal.


Em síntese, cada macaco no seu galho!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Cartas de Natal


Neste natal escrevi uma carta aos meus avós maternos. São os  dois vivos. Disse-lhes o quanto gosto deles e o quão importantes foram na minha vida. Mas acima de tudo preocupei-me em dizer-lhes que tivessem muito orgulho no seu legado.
Quando o meu pai fez setenta anos também lhe escrevi uma carta. Tentei em poucas linhas resumir a marca que a sua educação deixou em mim. Mas acima de tudo preocupei-me em dizer-lhe que ainda conto muito com ele.
Quando a minha mãe fez sessenta, também lhe escrevi. Mas a uma mãe è mais fácil e ao mesmo tempo mais difícil. Mais fácil porque mãe só há uma e mais difícil porque é impossível resumir os momentos em que ela foi apenas aquela mãe que eu precisava. Acima de tudo, foi isso que procurei dizer-lhe. 
Detesto o inacabado, sou um obcecado com a conclusão. Nestas cartas exorcizo o medo de deixar algo por dizer (escrever). São acima de tudo uma homenagem aos nossos ascendentes, aos responsáveis pela nossa existência e àqueles que nos deram… uma oportunidade de viver.
Saibamos aproveitá-la, fazer por merece-la e saibamos transmitir também essa oportunidade aos nossos descendentes. É isto a Vida.